A discussão sobre a formação do professor tem ocasionado muitos debates nos últimos tempos, todavia o conteúdo destes de alguma forma está refletindo na prática pedagógica de cada professor, permitindo-lhe uma reflexão mais profunda sobre a didática desenvolvida em nossas escolas e a apropriação do conhecimento. Por essa razão, percebe-se que as questões relacionadas à formação do professor e sua prática têm toda uma relação com a forma como ele compreende o que é didática e a relação da mesma com o momento histórico e social de determinada sociedade.
Segundo Penin (1994), “a Didática é a forma como o ensino é conduzido, tendo como objeto de estudo a situação ou o acontecimento de ensino”.Porém, ao longo da história da educação brasileira, percebe-se que o período anterior aos anos 80 foi marcado pelas pedagogias tradicional, tecnicista e nova que concebiam a didática de forma repetitiva, técnica, fragmentada. Há, nessas abordagens, uma semelhança entre plano e planejamento, não considerando o caráter de flexibilidade que todo planejamento deve possuir. A didática aplicada é voltada para o repasse do conhecimento sem a perspectiva de construção e reconstrução do mesmo; tem como objetivo a mudança do comportamento, possuindo função ideológica e pedagógica previamente determinada. As pedagogias acima citadas são bastante notadas na formação do professor atual, sendo a tendência tradicional o mais presente. Essa tendência transmite o conteúdo como verdade a ser assimilado pelo aluno. É a predominância da palavra do professor, das regras impostas, do cultivo exclusivamente intelectual. O professor é o principal sujeito do processo ensino-aprendizagem; em suas mãos, está o poder decisório quanto à metodologia e avaliação do conteúdo, isto é, “a prática tradicional é caracterizada pelo ensino “blá-blá-blante”, salivante, sem sentido para o educando, meramente transmissor, passivo, acrítico, desvinculado da realidade, descontextualizada” Vasconcelos (1995, p.20).
As tendências liberais (tecnicista e renovada), apesar de repensar o lugar do professor vendo-se como auxiliar no desenvolvimento do aluno, permanecem sem perceber o caráter histórico e social da educação, servindo ao modelo político vigente. As principais características da didática repetitiva vivenciada nas pedagogias tradicional, tecnicista e nova são:
•Excessivamente técnica;
•Acrítica e reprodutora com relação à sociedade;
•Mero receituário para levar a aprendizagem (memorização);
•Possui visão dicotômica por não relacionar o sujeito ao objeto e a teoria à prática;
•Tem por base leis e normas preestabelecidas pelo sistema;
•Não se preocupa em criar e produzir uma nova realidade, e sim, em ampliar o que foi criado;
•O planejamento é feito de forma inflexível, sendo burocratizado;
•Não possui visão histórico-social, sendo distante da realidade de alunos e professores.
A avaliação nesse período tinha como função classificar, medir, selecionar, e, muitas vezes, era um instrumento de punição. E isto era confirmado pela tensão dos alunos no momento da prova e pela postura autoritária do professor, já que tal prática mantinha sua imagem de “professor exigente”, ou seja, “avaliação propicia a alguns professores um caráter autoritário, prepotente e segregador, centralizado nas mãos arrogantes deste ou daquele que fazia de sua nota seu instrumento de sadismo ou sua maneira egocêntrica de selecionar os bons e os maus”, afirma Antunes (2002, p.13).
Com o amadurecimento da sociedade e a contribuição de homens como Paulo Freire, Piaget, Vigotsky, entre outros, a humanidade refletiu, ampliou e reformulou suas concepções políticas e sociais. Por conseguinte a didática também foi sendo ampliada, refletida, reformulada e transformada. Desse modo, falar em didática é refletir sobre o ensino e a aprendizagem, é repensar sobre a concepção de conhecimento por parte do professor, suas competências como profissional da educação. Portanto, defenderemos uma didática reflexiva voltada para a construção do conhecimento sistematizado, o saber cotidiano e a vivência na construção do conhecimento do professor sobre o ensino. No entanto, percebe-se ao longo da história que essa compreensão sobre didática é recente, data-se dos anos 80 com a chegada das idéias construtivistas ao Brasil e a aceitação dessa abordagem por parte dos professores. A didática adequada a esta concepção de ensino é reflexiva dialética. Passa-se aqui centrado nos estudos de Piaget e Vigotsky a existir uma preocupação com a construção do conhecimento, dando ao conteúdo uma forma coerente com a perspectiva histórica e ideológica do movimento. A didática utilizada pelo professor deve dar ao aluno a oportunidade de ser sujeito de sua própria educação e lutar pela transformação social.
Entre as principais características da didática reflexiva, podemos citar:
•Crítica e transformadora com relação à sociedade;
•Assume a dimensão política, histórica e social da educação;
•Compreende o conhecimento como processo, trabalhando-o a partir da realidade do aluno;
•Articula teoria e prática;
•Possui caráter criador;
•Busca uma ação recíproca entre professor e alunos (troca de conhecimentos);
•Estabelece uma relação entre finalidade e ação, saber e fazer, concepção e execução;
•A avaliação é vista de forma contínua, vivenciada em todo o período escolar e não somente concentrada nos momentos de provas e exames.
•É capaz de contribuir para a construção de um novo homem e de uma nova sociedade.
Hoje vivemos a era do conhecimento, a globalização, a revolução da informática e dos meios de comunicação faz com que a cada instante chegue até nós novos estudos, novas concepções, novos conhecimentos. Conseqüentemente, faz-se necessário aprimorarmos a didática que utilizamos como profissionais da educação. É cada vez mais necessário vivenciarmos uma didática reflexiva, repensar nossas competências profissionais e assumirmos nossa formação continuada. “O exercício e o treino poderiam bastar para manter competências essenciais se a escola fosse um mundo estável. Ora, exerce-se o ofício em contextos inéditos, diante de públicos que mudam, em referência a programas repensados, supostamente baseados em novos conhecimentos, até mesmo em novas abordagens e novos paradigmas. Daí a necessidade de uma formação contínua.” Perrenoud(2000, p.156)
Não podemos aqui afirmar que possuímos todas as competências de um professor construtivista, que apoiamos nossa prática em uma didática unicamente reflexiva e dialética, visto que somos fruto de uma escola tradicional e por muitos anos vivenciamos a didática repetitiva. Temos convicção de que o novo nasce do velho e é a partir da desconstrução e reconstrução de velhos paradigmas que estaremos prontos para: “organizar e dirigir situações de aprendizagem; administrar a progressão de aprendizagem; conceber e fazer evoluir dispositivos de diferenciação; envolver os alunos em sua aprendizagem e em seu trabalho; trabalhar em equipe; participar da administração da escola; informar e envolver os pais; utilizar tecnologias novas; enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão”Perrenoud (2000, p.155).Poderemos ousar ao afirmar que somos profissionais em transição e que essa é a palavra chave para a construção do profissional do futuro. Necessitamos avaliar nossa didática, reaproveitando os pontos positivos e reformulando os não satisfatórios. Só a partir do momento em que nos colocarmos como aprendizes e reconstrutores da nossa prática, é que estaremos trilhando o caminho que todo professor deve trilhar para ser um profissional condizente com o momento histórico em que vivemos.